quinta-feira, 18 de junho de 2009

Quando falo contigo, no meu peito

Só um olhar por compaixão te peço,

Um olhar.... mas bem lânguido, bem terno...

Quero um olhar que me arrebate o siso,

Me queime o sangue, m’escureça os olhos,

Me torne delirante!

Quando falo contigo, no meu peito

Esquece-me esta dor que me consome:

Talvez corre o prazer nas fibras d’alma:

E eu ouso ainda murmurar teu nome!

Que existência, mulher! se tu souberas

A dor de coração do teu amante,

E os ais que pela noite, no silêncio,

Arquejam no seu peito delirante!

E quando sofre e padeceu... e a febre

Como seus lábios desbotou na vida...

E sua alma cansou na dor convulsa

E adormeceu na cinza consumida!

Talvez terias dó da mágoa insana

Que minh’alma votou ao desalento...

E consentirás, ó virgem dos amores,

Descansar-me no seio um só momento!

Sou um doudo talvez de assim amar-te,

De murchar minha vida no delírio...

Se nos sonhos de amor nunca tremeste,

Sonhando meu amor e meu martírio...

E não pude, febril e de joelhos,

Com a mente abrasada e consumida,

Contar-te as esperanças do meu peito

E as doces ilusões de minha vida!

Oh! quando eu te fitei, sedento e louco,

Teu olhar que meus sonhos alumia,

Eu não sei se era vida o que minh’alma

Enlevava de amor e adormecia!

Oh! nunca em fogo teu ardente seio

A meu peito juntei que amor definha!

A furto apenas eu senti medrosa

Tua gélida mão tremer na minha!...

Tem pena, anjo de Deus! deixa que eu sinta

Num beijo esta minh’alma enlouquecer

E que eu viva de amor nos teus joelhos

E morra no teu seio o meu viver!

Sou um doudo, meu Deus! mas no meu peito

Tu sabes se uma dor, se uma lembrança

Não queria calar-se a um beijo dela,

Nos seios dessa pálida criança!

Se num lânguido olhar no véu de gozo

Os olhos de Espanhola a furto abrindo

Eu não tremia... o coração ardente

No peito exausto remoçar sentindo!

Se no momento efêmero e divino

Em que a virgem pranteia desmaiando

E a c’roa virginal a noiva esfolha,

Eu queria a seus pés morrer chorando!

Adeus! Rasgou-se a página saudosa

Que teu porvir de amor no meu fundia,

Gelou-se no meu sangue moribundo

Essa gota final de que eu vivia!

Adeus, anjo de amor! tu não mentiste!

Foi minha essa ilusão e o sonho ardente:

Sinto que morrerei... tu, dorme e sonha

No amor dos anjos, pálido inocente!

Mas um dia... se a nódoa da existência

Murchar teu cálix orvalhoso e cheio,

Flor que respirei, que amei sonhando,

Tem saudade de mim, que eu te pranteio!

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