quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Desencanto




Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.

Desesperança



Esta manhã tem a tristeza de um crepúsculo.
Como dói um pesar em cada pensamento!
Ah, que penosa lassidão em cada músculo. . .

O silêncio é tão largo, é tão longo, é tão lento
Que dá medo... O ar, parado, incomoda, angustia...
Dir-se-ia que anda no ar um mau pressentimento.

Assim deverá ser a natureza um dia,
Quando a vida acabar e, astro apagado,
Rodar sobre si mesma estéril e vazia.

O demônio sutil das nevroses enterra
A sua agulha de aço em meu crânio doído.
Ouço a morte chamar-me e esse apelo me aterra...

Minha respiração se faz como um gemido.
Já não entendo a vida, e se mais a aprofundo,
Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.

Por onde alongue o meu olhar de moribundo,
Tudo a meus olhos toma um doloroso aspeto:
E erro assim repelido e estrangeiro no mundo.

Vejo nele a feição fria de um desafeto.
Temo a monotonia e apreendo a mudança.
Sinto que a minha vida é sem fim, sem objeto...

- Ah, como dói viver quando falta a esperança!

Autor: Manuel Bandeira

Vazio



Esse adeus estampado
em uma página branca

dentro dos sonhos seus,

Não precisa de tele-jornais.
Não precisa de sombras,
derivações,
sintomas,
catástrofes,
Museus...

Guerra ou paz.

Só precisa um olhar mudo,
uma mão que escolhe

tudo,

até restar apenas
uma foto em sépia
de réplicas,
de promessas,
de abismos,
dissoluções

dos meus antigos impossíveis...

E nada mais.



(Autora: Jessiely Soares)

Mundo de lá




A hora em que mais doeu
foi quando você acenou

E tudo o mais fez-se neblina.

Turva,
Mil graus abaixo de zero.

E quando mil pensamentos
voltaram descarrilados
a mesma estação de metrô

De tantas
chegadas e partidas.

Eu trocaria a imortalidade
- se eu assim a tivesse -
por mil vezes de teu sono profundo

Por teus sonhos difusos
sem as despedidas de inverno

Sem esse medo da vida.



(Jessiely Soares)

A Morte Absoluta




Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão - felizes! - num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento.
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: "Quem foi?..."

Morrer mais completamente ainda,
- Sem deixar sequer esse nome.

Ator: Manuel Bandeira

A estrela e o anjo




Vésper caiu cheia de pudor na minha cama
Vésper em cuja ardência não havia a menor parcela de sensualidade
Enquanto eu gritava o seu nome três vezes
Dois grandes botões de rosa murcharam
E o meu anjo da guarda quedou-se de mãos postas no desejo insatisfeito de Deus.

Madrigal melancólico




O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.

A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.

O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai.

O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti - lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.

Autor: Manuel Bandeira

Adeus, meus sonhos!




Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh'alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.
Que me resta, meu Deus?
Morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já não vejo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!


Autor: Álvares de Azevedo

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Não tenho mais




Não temo mais...
os fantasmas que me perseguem.
Eles já fazem parte das minhas noite e tardes.
Convivem comigo em meu cárcere.
Fazem-me companhia
em dias de nuvens negras onde
o sol não brilha.

Na lama, onde atolo minhas poesias,
escureço meu olhar, perco minha alegria,
confesso em meus versos as tristezas dos meus dias

Não temo mais ao confrontar-me comigo,
já me vejo no espelho como assombração
admito...
ser um ser abatido, meio sem cor,
pálido e ferido.

Vou ficando frio...
sem emoções..neste meu vazio.
No oco do meu mundo
vou desfilando letras e compondo
meu absurdo.

O escuro não me aflige mais...
se não tenho estrelas fico apenas
com os vendavais.
Se nem o vento aqui passar, fico apenas
com o silêncio a me silenciar.

Não temo mais a boca seca,
nem as mãos cruzadas,
nem ao arrepio que me chega
em horas desesperadas. Ajoelho-me
e me entrego ao exílio de minhas palavras.

Durmo entre as navalhas...
Acordo entre os punhais.
Tornei-os desprezíveis,
não me cortam nunca mais.


(Leni Martins)

Cálice de veneno




Envenenarei minha saudade
Com um cálice de amargo fel
para matar esta saudade que
descrevo em um pedaço de papel.

Envenenarei minhas lembranças
com um cálice transbordando
de esperanças para que morram
esperando no tempo e na distância.

Envenenarei minha dor
com um cálice de doce veneno
para aliviar o sofrimento que habita
em meu peito.

Envenenarei o amor que sinto
em um cálice de vinho tinto
brindando a morte de um sentimento
que há muito vem me ferindo.

Brindemos ...cálice de veneno,
mato a mim mesmo,
envenenando estes sentimentos.

(Leni Martins)

A força do medo




O medo bloqueou minha estrada,
limitou meu espaço, acorrentou minha alma,
travou meu passo.

O medo cercou minha trilha,
enforcou-me num laço,
calou minhas palavras, me tornou seu escravo.

O medo matou dentro de mim
uma semente chamada liberdade
aquela que brota com o vento
e semeia a felicidade.

O medo confinou meu ser
nas entranhas do destino,
num emaranhado como de um arame farpado,
arruinado e desprovido.

O medo me condenou, me batizou
com minhas lágrimas, selou minha boca,
cegou minha verdade, esfacelou meu sonho
e amordaçou minha vaidade.

O medo amputou minha força,
esquartejou minha coragem,
esfaqueou meu peito...
Tornou-me um covarde.

O medo escureceu meu brilho,
apagou minhas estrelas ,
Secou meu riacho ,
murchou minha flor...
Tornou-me seu capacho.

O medo quebrou o cristal polido,
estilhaçou em mil pedaços minha face
de vidro, não sou mais eu . Agora
sou apenas...
cacos perdidos.

(Leni Martins)

Desconhecida




Não reconheço meu olhar...
Que a muito tempo se perdeu,
Nas curvas de uma estrada...
Nas encruzilhadas do meu eu.

Desconheço-me
Diante deste espelho...
Face de alguém oprimido,
Face de alguém em desespero.

Não me reconheço mais, me esqueço,
Sinto-me só...
Um espantalho da meia noite
Um punhado de pó.

Um ser omisso, sem voz.
Que não amanheceu com
A luz frouxa do nascer do sol.

Eu anoiteci, me esqueci...
Guardando-me para as estrelas
Não me reconheço mais...
Sou o fantasma da lua cheia.

(Leni Martins)

Longe de mim mesmo



Estou longe de mim mesmo,
Vagando em pensamentos,
Oprimindo meus sonhos,
Desprezando meus desejos.

Longe das fantasias,
Longe dos entusiasmos,
Vivendo a realidade
Sobrevivendo de um passado.

Estou longe de mim mesmo,
Vivendo o que mais temo,
De corpo cansado e alma morrendo!
Olhos vendados, pés amarrados
Punhos fechados, amargo veneno.

Longe de mim mesmo!
No suicídio dos meus dias,
Eu vou me entorpecendo,
Matando as alegrias,
Matando-me por dentro.

Estou muito longe!
Muito longe de mim mesmo!

(Leni Martins)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Negras Rosas



Estava eu andando entre mortos
Perdida num campo de negras rosas
Ferida por alguns espinhos, derramava meu sangue
Sentia meu espírito me deixar alguns instantes
Sentei-me então perto à maior lápide

Ouvi sussurros do vento
Quebravam aquele silêncio
Harmoniavam aquele momento
E naquela nobre melodia
Confusa, eu me perdia

Negras sombras já estavam a me envolver
E meu coração, eu nem sentia mais bater
E num momento repentino
Já era finito meu desatino

Meu coração já voltava a doer
E as sombras começavam a desaparecer
Com o tempo, já não ouvia mais o vento
Dentro de mim, gritavam meus lamentos
E novamente..
Estava eu andando entre mortos
Perdida num campo de negras rosas


( Adrian Fernandez )

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Destino

O destino me deixou na beira
de uma estrada...
carregada de pensamentos
sem rumo, sem malas...

Sentada a beira de um abismo
sem saída, sem asas...
avistando ao longe os lampejos
dos meus sonhos desaparecerem
na madrugada.

De joelhos e tão cansada,
implorei para o destino...
não me deixar desamparada
trazer-me ao menos um fio de
esperança, para que eu possa
ficar dependurada.

Mas o destino silenciou,
nem mesmo o vento aqui
soprou.
E eu gritei no infinito...
minha voz ecoou....
saltei daquele penhasco
porque o destino não me levou.

( Leni Martins )

Exorcizo

Eu te exorcizarei de dentro de mim
no altar das minhas esperanças.
Recolherei minhas recordações,
matarei minhas lembranças...

Serei como o faquir que suporta
toda dor, tua adaga não me fere mais
nem mesmo teu desamor.

Renegarei minha saudade,
a enforcarei em meu peito.
Com um nó bem apertado,
a sufocarei em pensamentos.

Exorcizo-te como um anticristo,
que rouba minha alma e meus sentidos
não sou mais eu, sou tu me possuindo.

Eu te renego
até no ar que eu respiro,
suplicando pela minha vida
eu te expulso meu anjo caído,
não te quero dentro de mim...
ou eu me suicido?

As chagas que deixastes sobre meu corpo,
as curarei à ferro e fogo...
cicatrizando minha alma
e me livrando deste estorvo.

Eu te exorcizo
corvo negro da escuridão,
porque hoje o amor e ódio
seguraram em minhas mãos.

( Leni Martins )

Morta



Sinto-me morta
nesta cruz que me suporta!
Nem mesmo eu sei o que mais me importa!
Se é a tua ausência, ou se é a tua volta!

Neste meu recinto de segredos e labirintos,
vou deixando a máscara cair.
Não sei se finjo estar triste,
ou se finjo estar feliz.
Neste meu neutro estado de ser,
não sei mais o que sentir.

Sinto-me morta
diante destas horas tortas,
enforcada em uma corda,
sufocada, em coma,
imóvel e sórdida.

Neste meu sepulcro,
coloco minha vida...
decoro-o com letras
e algumas notas de melodia
para aliviar-me desta morte
que me mata a cada dia.

( Leni Martins )

Amor e Ódio

Eu te amo com todo ódio que te tenho!
Amo com o mais suave dos venenos
Com o mais doce sentimento!
Com a dor mais profunda de alguém
Que chora em silêncio.

Eu te amo...
Com todo ódio que te tenho!
Amo como a fragilidade de uma flor
Amo como a força de um guerreiro.

Eu te amo...
E te odeio...
Com todos os sentimentos...
Como a tempestade que passa,
Como o assobio de um leve vento.

Eu te odeio,
Porque amo demais
Este amor que te tenho!

( Leni Martins )

Dou-te Minha Face


Dou-te minha face
Deslavada,
Calejada
de tanto me doar,
o silêncio é tapa na cara,
a pior maneira que se tem de esbofetear.

Dou-te minha outra face...
sem vergonha na cara,
de levar pancadas
e ainda continuar.

O pior é que...
Setenta mil vezes sete
eu sei que ainda irei te perdoar.

( Leni Martins )

Serpente

Carrego em minha boca
o veneno da serpente,
que me escorre pela garganta
acumulado entre os dentes.

Tenho nas entranhas um misto de
sentimentos, a ira da víbora
que desliza em segredos, traiçoeira
e escondida aguardando meus desejos.

Carrego em meu peito
uma naja enrolada,
do lado esquerdo ela me prende,
do outro ela me abraça.

Controlando-a
a cada dia que se passa,
não deixando seu veneno
ultrapassar minha couraça.

E vou mantendo esta serpente...
não deixando o seu veneno se
destilar em minha mente.

( Leni Martins )

Aqui Jaz

Aqui jaz um corpo ainda
não soterrado , que sobrevive
de migalhas , de sentimentos inacabados.

Aqui jaz uma alma
iluminada que luta para não ser apagada
com todas as forças que tem.

Alma penada, de corpo ainda
não soterrado, briga e guerreia
contra as trevas do medo que mora ao lado

Aqui jaz, mora um pesadelo
que domina a mente, que se faz
presente em cada anoitecer.

Aqui jaz minha alma,
neste corpo condenado a morrer,
que de tanto amar ,
carrega em um manto a dor do padecer.

E meu pranto será o véu
na face entristecida,
enlouquecida ....
Aqui jaz minha vida,
sobreviverei entalhando em meu peito,
– Aqui jaz – a quem tanto AMEI.

( Leni Martins )

Amor de Luto



Velo por este amor de luto,
vestida de branco ,mas de coração obscuro
De face rosada e sorriso mudo.

Cubro o meu peito
com uma mortalha de seda,
estampada de lembranças,
cravejada de rosas negras.

Amor de luto...
resguardado na alma,
escondido e absoluto,
envolto de saudades,
carregado de absurdos

Laços de atados nós se desfazem
com o tempo, se transformam em pó
o amor de luto que um dia foi
tudo e hoje é só.

Amparo em minhas mãos este coração
despedaçado
que agora deixo sobre o sepulcro
com teu nome tatuado.

Leni Martins

( http://www.lenipoesias.com.br/amordeluto.htm )

Vermelho rubro

Veja o vermelho rubro
em cada verso que escrevo
manchando uma folha em branco
do vermelho intenso que me escorre
pelos dedos.


Vermelho rubro...
do corte feito em meus sentimentos,
derramado no manuscrito que deixo,
letra por letra escorridas dos meus
pensamentos.

Manuscrito de sangue
em cada verso que escrevo.
Vermelho rubro
que me escorre pelos dedos.

Deixarei lindas rosas rubras
despetaladas sobre o manuscrito, tão vermelhas
e vivas, quanto o amor que sinto.



( Leni Martins )

Sem lápide, sem flor

Sepultarei este sentimento
sem lápide , sem flor,
no mais profundo esquecimento
sepultando junto
toda minha dor.

Sepultarei
minhas lembranças
e toda saudade que sinto de ti...
no mais profundo esquecimento, no
lamento de cada dia que perdi.

Sepultarei este sentimento
e junto dele minha esperança , minha ilusão
sangrando a alma...
feito lança fincando o coração.

Enterro-te , meu sentimento,
no poço fundo que me lançastes,
permaneça lá no fundo de onde saíste
e nunca mais me vem afligir.

Sepultando-te eu sobrevivo
sem lamúrias...
sem sofrimentos,
encontrando minha luz,
afugentando meu tormento.

Sepulto este amor
no mais profundo esquecimento,
sem ressentimento.

Sem lápide , sem flor.


( Leni Martins )

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Saudade




Ó saudade sentimento das trevas!
Angustia minha vida
E toma as palavras que surgem...
De onde vem este sentimento maligno?!
Para onde vai este aperto no coraçao?!
Só o tempo dirá...
Por um curto instante
A alegria invade minha alma
Com lembranças dos bons momentos
Que pena...
Foi apenas um instante
Um mízero instante que não sse compara
À dor que me toma!
Que mundo cruel é este?!
Este mundo que separam os que amam...
Este mundo que muitas vezes
Aproxima os que se odeiam.
Por este motivo,
Eu profundamente te odeio,
Quem sabe assim essa vida nos une...

(Autor: Desconhecido)

† Ilusões †



Iluzões
Se tornam realidade?
Se tornam nesse mundo
Em que não falta maldade?
Somos vitimas da história
No passado e no presente
Escravização e guerra
Em um mundo com tanta gente
Pessoas presas à religião
Um mundo inteiro com ilusão
Pessoas presas à fome
Esperando chegar à morte
Pessoas com tristeza
Ódio e dor no coração
Se é possível ter coração
Em um mundo de ficção
Pessoas presas à lei
Que causam corrupção
Pessoas presas à desigualdade
Que só criam ilusão
Essas palavras têm variáveis
Que pelos homens se torna uma ação
Que designam no nosso mundo
Ou é só uma outra ilusão?
Essa palavra, ilusão

( Autor: Desconhecido )