domingo, 29 de janeiro de 2012

Teu Segredo




Flores envenenadas na jarra. Roxas azuis, encarnadas, atapetam o ar. Que riqueza de hospital. Nunca vi mais belas e mais perigosas. É assim então o teu segredo. Teu segredo é tão parecido contigo que nada me revela além do que já sei. E sei tão pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu és o meu.

( Clarice Lispector )

DÁ-ME A TUA MÃO





Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

( Clarice Lispector )

PRECISÃO




O que me tranqüiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

( Clarice Lispector )

Desabrochar



“Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada… Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro…”

( Clarice Lispector )

Clarice Lispector




Eu não escrevo o que quero, escrevo o que sou.

( Clarice Lispector )

Sonhos




Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Más há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isso não tem importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.

Texto de William Shakespeare

Musica



O homem que não possui a música em si mesmo,
Aquele a quem não emociona a suave harmonia dos sons,
Está maduro para a traição, o roubo, a perfídia,
Sua inteligência é morna como a noite,
Suas aspirações sombrias como o Erebo.
Desconfia de tal homem, escuta a música.



Texto de William Shakespeare



Ame a todos, confie em poucos, não faça mal a ninguém.

Frase de William Shakespeare

Vinho




O bom vinho é um camarada bondoso e de confiança, quando tomado com sabedoria.


Frase de William Shakespeare

Melancolia

Sua Sombra




Talvez esta noite eu te veja...

Caminhando pela rua

As tochas acesas

Iluminando as feições brancas

Do rosto lindo que tens

Frio, mais frio!!!

Teus lábios congelam ao tocar

os meus, que a vida profanou

Talvez veja teu vestido negro

Esta tua tristeza que me encanta

Talvez esta noite eu te veja...




(Necroterium)

Você diz que ama a chuva...





mas você abre seu guarda-chuva quando chove. Você diz que ama o sol, mas você procura um ponto de sombra quando o sol brilha. Você diz que ama o vento, mas você fecha as janelas quando o vento sopra. É por isso que eu tenho medo. Você também diz que me ama.“


William Shakespeare

Correntes




Silêncio o teu perdão
Com toda minha culpa
Esquartejo seu coração
Inventando essa desculpa


Que...

Quebrando todas as correntes negras
Ao redor do meu pescoço
Eu percebo que as lágrimas não preenchem
Essa sala escura e vazia...


Solidão é um presente
Um remédio, um comprimido
Quando sua alma é ausente
E não tem nenhum amigo

Você percebe que...

Quebrando todas as correntes negras
Ao redor do meu pescoço
Eu percebo que as lágrimas não preenchem
Essa sala escura e vazia...


Uma sala sem janelas
Meu sorriso de sangue
Lágrimas em minha cela
Um corpo exangue


Quebrando todas as correntes negras
Ao redor do meu pescoço
Eu percebo que as lágrimas não preenchem
Essa sala escura e vazia...


(Invalid Angel)

Aos Cemitérios Esquecidos




Eis o lugar de arrepios aos estúpidos
És onde minhas doces lágrimas descarrego
Noites e noites, morada de meus devaneios distraídos
E aos túmulos e a solidão me apego


Tamanha distração que nem licença peço
Ao me deitar sobre sepulturas particulares
Anjos mortos solitários em seus lares
E nessa morbidez lúgubre padeço


Um mar imenso de estacas e cruzes
Anjos de mármore, sinais da morte
Aqui na eterna escuridão, jamais acendam luzes
Nessa desgraçada vida nunca tive sorte


O barulho do mundo foi minha tortura
Aqui no mar do esquecimento, a paz é minha cura
Se na vida nunca tive sorte
É então que nesse cemitério prefiro a morte


(Eduardo Siqueira)

Mórbido Desejo




Conceda-me uma faca, meu Deus

Abençoada, brilhante e afiada

Que atravesse as veias, sem dó

E ao coração desate o nó

Para que fiquemos mais aconchegantes

Quando retornarmos ao pó

Quando distâncias tenderem a voltar

E onde fica a amada?

Numa alma perturbada?

Nos berços da ilusão, será?

Na solidão?

No amar?

Ouça minhas preces, Senhor!

E conceda-me a faca

Quem sabe cante eu o corte da vitória?

No final de uma dura corrida?

Quem sabe eu destroce a minha memória?

Quem sabe eu assassine o amor?

Mórbido e triste?

Puro e sem maldade!

Apenas querendo uma faca

Para matar a dor

E feridas coçar

Para cicatrizar

Queria você me querer?

Para depois sofrer?

Leve a faca querida

E em seu gume, restos de minha ferida

Para seu quarto enfeitar

E seu ar perfumar

Com o verdadeiro odor de uma coração

Podre que pode...

Podre que pede...

Sangue puro, quente e vermelho

Já olhaste, querida?

Seus olhos profundos no espelho?

Consegue ver as veias vermelhas?

E a pupila dilatada?

Que o espírito denuncia?

Seus olhos falam, sabia?

Leve, garota, a primazia

De uma veia podre jorrando sangue de ópio

Sangue de lágrimas

Faca que alivia as lástimas

E deixam lembranças de um funeral

Assim como faz uma rosa branca

No lar de uma família de ossos

Para alegrar a casa

E ilusões satisfazer

De um coração deturpado sentindo-se mal

Dentro do peito de um animal

Selvagem e mórbido?

Tá certo!

Humanamente racional!



(Cristiano Marazzi)

Sopro das Trevas



A morte bate a porta dos meus sonhos todos os dias

Sinto seus dedos frios me tocar

E o sopro do seu chamado em meus ouvidos

Convidando-me para com ela partir

Os meus pesadelos eternos

Dizem-me sempre

Qual o caminho certo a seguir.



Minhas lágrimas sanguíneas

Minhas gotas divinas

De sangue derramado

Doce e desejado.

Minha vida morta

Minha vitória sem glória

Meus pensamentos que vivem

Em função da morte e do passado.



Espera constante

Por um pesadelo distante

Que nunca chega próximo da realidade

Que sempre negam as verdades

Escondidas na pedra de gelo

Que tenho no lugar do coração

Que nunca sonham por mim

Que deixam que eu chore assim

Que nunca me dão perdão.



Gritos abafados

No silêncio da noite

Na véspera da morte

Que vem do sul, do norte;

De um inferno em chamas

De uma glória infâmia

De viver e ao mesmo tempo morrer

Gritos que soam como suspiros

Que suspiram esperando e desejando

Um sopro que venha das trevas,

A morte digna pela qual se espera.


(Daniely Melo)

Silêncio...




Escuto aquela canção nobre

Que os sons não a fazem

E só a alma percebe

As Odes imortais da solidão

Onde moram os que se esquecem?

A ave negra do alto corteja

O sublime canto das dores reais...

A pálida beleza da amada...

Que voz pálida e pútrida vem

Embalar minha morada

Cujo anjo frio me olha

Aonde meu caminhar...

Não existe

Meu doce e mortal sangue...

Não existe

Agora só o venenoso soro

Corre no meu corpo

E a paz atormentada

Não me acalma

Como a canção que não faz som...





(Necroterium)

Por Que eu ainda te amo!




O amor não é escrito à lápis,
por isso,
nao tente passar a borracha.


O amor não é algo que fenece sob palavras fracas,
por isso,
não gaste-as em vão.


O amor nasce, cresce, envelhece e imortaliza-se,
por isso,
não tente destruí-lo.


O amor se impregina e une corpos e(à) almas,
por isso,
não tente separar(-los).


(Dama das Incerterzas)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Timidez



Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

e um dia me acabarei.

( Cecília Meireles

Retrato



Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?

( Cecília Meireles )