quinta-feira, 30 de abril de 2009

Motivo




Eu canto porque o instante existe

E a minha vida está completa

Não sou alegre nem sou triste:

Sou poeta.


Irmão das coisas fugidias.

Não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

No vento.


Se desmorono ou se edifico,

Se permaneço ou me desfaço,

- não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno e asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

- mais nada.


(Meireles)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Poema Meu Corpo que definha


MEU CORPO QUE DEFINHA.

Desconheço minhas ultimas expressõesMisturas do vazio e da tristeza,Dia a dia um fio que percorre meu corpoCompartilhando de sorrisos desgraçados, com incertezaMinh'alma partio sem esperança,Apenas em seu vulto possuia o tom de um indefesoEu sinto o odor da solidão...


A morte apanhou-me sem retratar minha dorEm seus olhos eu buscava o amor...Uma imagem de fertilidade apertava-me com fervorAjoelhei-me sobre ela com os braços abertosUm momento sincero!Meu corpo inútil não resistio a pura vivencia ineficaz.


Sentada em pleno dilúvio,Tremendo em quanto meu corpo adormeceDura sensação de definhoNão encontro ninguem que me encontre, só me esquece,Inútil tentativa para um sozinho...No escuro a imagem visível da minha solidão.


...Um momento rápido de alivio e uma inexplicável sensação...


Minh'alma já abandonou essa carne sujaFecho os olhos para mais nada ver,Só lembro-me do que eu ví enquanto permanecia no chão,Não sinto dor alguma... Porém existe ainda uma dor que não me abandonaUm frio que ainda percorre meu corpo......A imagem de uma alma que não está em paz.


(Shayeny Pieroni )


(http://recantodasletras.uol.com.br/autores/shayenypieroni)

segunda-feira, 27 de abril de 2009



Muitas coisas tenho a odiar.
Poucas coisas tenho a amar.
Mais o pouco que amo, sendo roubado.
Transformarei minha alma em puro ódio, em puro rancor.
Não tenho medo do que me mantém acordado.
Não tenho medo do que me faz sangrar.
Há como eu queria que tudo acabasse .
Há como eu queria que o mundo acabasse.
Para o inferno se alguém me odeia.
Para o inferno se alguém não me ama.
Claro, Eu te amo.
Claro, você é a minha vida.
Não se preocupe, meu ódio passará.
E eu ainda estarei com você...
(Andreson Matos)

domingo, 26 de abril de 2009

AO LUAR




AO LUAR

Quando, à noite, o Infinito se levanta
À luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tátil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!
Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!
Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado...
Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!

(Augusto dos Anjos)

Poema - Um Anjo


UM ANJO - .(outubro 1855)

FOSTE A ROSA desfolhada Na urna da eternidade Pr’a sorrir mais animada, Mais bela, mais perfumada Lá na etérea imensidade.

Rasgaste o manto da vida, E anjo subiste ao céu Como a flor enlanguecida
Que o vento pô-la caída E pouco a pouco morreu!

Tu’alma foi um perfume Erguido ao sólio divino; Levada ao celeste cume C’os Anjos oraste ao Nume Nas harmonias dum hino.

Alheia ao mundo devasso, Passaste a vida sorrindo; Derribou-te, ó ave, um braço, Mas abrindo asas no espaço Ao céu voaste, anjo lindo.

Esse invólucro mundano Trocaste por outro véu; Deste negro pego insano Não sofreste o menor dano Que tu’alma era do Céu.

Foste a rosa desfolhada Na urna da eternidade Pr’a sorrir mais animada Mais bela, mais perfumada Lá na etérea imensidade.

(Machado de Assis)